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IDÉIAS E FATOS

May 21

BELEZA PÕE MESA OU NÃO?

 

BELEZA PÕE MESA OU NÃO?

 

Quando Deus criou o homem

Viu-lhe naquela aflição

Viu também necessidade

De acalmar-lhe o coração

E perguntou-lhe porém

Me diz que diabo tem

Que não sossega Adão?

 

Ele respondeu, não sei

Sinto um aperto danado

Machucando o coração

Como se fosse arrancá-lo

Deus disse: é brincadeira!

E fez uma companheira

Para poder acalmá-lo

 

Vai dormir, para acalmar-te

Que eu vou ver o que faço

Quando acordou ele estava

Com dor debaixo do braço

Deus arrancou-lhe a costela

E fez uma mulher bela

Da cabeça até embaixo

 

Mas Adão ainda não tinha

Na vida muita malícia

Ficou só a apreciar

Do paraíso a delícia

Só descobriu o amor

Quando Eva o agarrou

E lhe fez uma carícia

 

Até hoje nós pagamos

Pelo “erro” de Adão

Por ele não ter controle

Sobre o próprio coração

Padecemos até morrer

Sem ter a quem recorrer

Morremos sem salvação

 

Mas Eva era bonita e,

Afinal só tinha ela

E Adão tinha direito

Pois era sua costela

Fez o que fez porque quis

Querendo ele ser feliz

Nos meteu numa esparrela

 

Mesmo assim somos felizes

Pois podemos escolher

Tem tanta mulher no mundo

Que um dia quando eu morrer

Meu nome está no caderno

Do comandante do inferno

Não tenho pr’onde correr

 

Pra pegar mulher bonita

Exige todo um ensaio

Você fica meio longe

Olhando só de soslaio

Que é para não ter surpresa

Perdendo assim sua presa

Por causa de um “atrapaio”

 

A feia é só chegar

Não precisa encenação

Agarra ela pelo braço

Derruba ela no chão

Diz vou tirar meu atraso

“pegar” você depois “vazo”

Me diga se quer ou não

 

Pra encurtar a história

Eu vou ao “x” da questão

Responder sobre a beleza

Se ela põe mesa ou não

Isso não me aperreia

Se eu “pegar” mulher feia

É pra não ficar “na mão”

 

Esse questionamento

Me trás alguma tristeza

Exige muito cuidado

E bastante sutileza

E pra não magoar ninguém

Todas elas sempre têm

No fundo alguma beleza.

 

Pedro Muniz

Acadêmico de Letras

FAP – Pimenta Bueno - RO

April 14

Apreciação sobre o Coçar

Apreciação sobre o  Coçar

 Everaldo L. Santana - filósofo

 Certa vez, o filósofo francês Montaigne sobre o coçar comentou: "coçar é uma das mais doces recompensas da natureza e a mais à mão". Será que Montaigne tem razão ao chamar o coçar de doce? O que é esse coçar que fez o filósofo se expressar dessa forma?

Há, de certo modo, uma razão no que Montaigne disse. Vamos a ela.

A razão de Montaigne está no fato de que a palavra coçar se deriva do latim "coctiare" que possui estes significados: cozinhar, preparar ao fogo, queimar, agitar. Em grego, o coçar se traduz pela palavra "knizo" que apresenta estes sentidos: inflamar, excitar. Daí se entende que o ato de coçar expressa uma agitação seguida de uma excitação. Essa agitação e excitação ocorrem em função dos nervos, só há coceira onde existe terminação nervosa, portanto, nem as unhas nem os cabelos coçam, pois neles não existem nervos.

Como foi dito acima, do ato de coçar participa a excitação e nela também se inclui o prazer, pois coçar é um ato prazeroso enquanto "doce", como disse Montaigne. O coçar é tão prazeroso e sublime que levou o rei da Inglaterra Jaime I a afirmar: "Ninguém além dos reis e príncipes deveria ter comichão porque a sensação de coçar é sublime". E há um provérbio antigo que diz: "melhor que fortuna é coçar onde precisa". O escritor Montagu cita um personagem Thomas Carlyle que fala: "o auge da felicidade humana é coçar onde precisa". Outro provérbio antigo diz: "você coça as minhas costas  que eu coço as suas". Eis aí fatos de como a coceira participa intensamente da vida humana a ponto de ela exprimir um modo de comportamento que reflete a maneira de pensar coletiva e individual. Coletiva enquanto social representado pelos provérbios; individual enquanto opinião particular, subjetiva.

Não se vá pensar que apenas o ser humano sente  e explicita o fenômeno do coçar. Os animais, sejam eles silvícolas ou domésticos reagem, em forma de coceira, quando os insetos e as intempéries excitam suas terminações nervosas. Dessa forma, animais e humanos experimentam o mesmo fenômeno, porém guardando as devidas proporções.

Além dessas referências, o dramaturgo inglês William Shakespeare produz uma conexão entre coçar e opinar, eis aí : "what's the matter, you dissentious rogues, that, rubling poor itch of your opinion, make yourselves scabs?" (o que há, patífes arruaceiros, que esfregando a pobre coceira de suas opiniões, conseguem formar cascas?).

Tendo ainda o evento coçar como elemento em baila, o escritor Montagu apresenta duas outras citações: a de Samuel Butler e a de Ogden Nash. Ei-las: Samuel Butler: "...he could seruples dark and nice, and after solve in a trice, as if divinity had catch'd the itch on purpose to be scratched". (...ele conseguia criar escrúpulos nefandos e ou doces, depois resolvê-los num átimo, como se a divindade tivesse contraído sarna  com a finalidade de ser coçada). Ogden Nash: "one bliss of which there is no match is when you itch to up and scratch". (uma bênção para qual não há igual é quando a gente sente um comichão dos pés  à cabeça e se coça todo então).

Essas três pontuações em torno do prurido (do coçar) não ficam apenas no âmbito prosaico. Em épocas remotas, ou seja, em tempos nos quais as sociedades mais antigas e de caráter religioso, o controle sobre as reações do corpo era uma prova de elevação espiritual, de modo que quando alguma parte do corpo coçava, o religioso não fazia nenhum esboço que indicasse intenção de coçar a referida parte corporal. Esse ato era praticado por monges orientais em seus momentos de meditação. Controle total sobre o corpo implicava em ignorar qualquer ação externa. A imobilidade em estado de concentração não admite coceira, a qual provocaria a desconcentração. Ignorar o externo. Eis o lema dos monges.

Finalmente, o ato de coçar é particular e intransferível, entretanto controlável. Houve época em que  escravos brancos e negros eram proibidos de se coçarem enquanto serviam a seus algozes. Visto assim, até a coceira é, de certa maneira, manipulada.

March 17

Um domingo

Um domingo

Um conta moedas enquanto outro segura a sacola de tomates verdes. Alguns reclamam do preço alto, enquanto outros conversam sobre a chuva que está por vir – o calor está infernal, ainda lembra alguém. Aquele vende ovos, este comprou algodão doce para o menino chorão e ganhou uma bexiga que estourou ao se chocar com uma banca de abacaxi, e o menino chora ainda mais, agora por uma perda airada. Aquela mulher, barriga de sete meses empurra um carrinho dormitório de um bebê com um ano incompleto, enquanto espera se completarem outros nove meses. Um toma café, outro como pastel, dois chupam picolé. Tem dois, sentados no meio fio negociando um sítio com plantação de café produzindo no terceiro ano de planta – uma beleza!, ainda diz, ao interessado. Alface e rabanete se misturam com cebola, chuchu, calcinhas, meias, fitas k7 mais alguns CDs e badulaques importados. As beatas, livros de reza e terço na mão, dirigem-se à Igreja. O zunzum de músicas e oferta de carne, lingüiça, couve, laranja, vassoura de cipó se misturam com a loira falsificada de lábios carnudos pintados de prata, prontos para o beijo e peito de silicone, enfeiando o que era belo. A bengala, na mão trôpega do velhinho, choca-se com o rabo do cachorro que está de perna levantada regando a árvore plantada no centro do canteiro pelos impostos impingidos à população descontente. Aquele, embriagado com o pó cheirado na madrugada, quer comprar a rapadura pela metade do preço. A morena deixa, escandalosamente, escapar um beijo de dentro do seu sorriso, mas ela passa e só me lança um olhar como se um convite fosse: não fui, fiquei. Aquele, mais atrevido, braço pousado sobre o ombro da ruiva, deixa a mão repousar sobre o saltitante seio farto, flácido... e ambos, languidamente, caminham como se nada procurassem. Inesperadamente o menino, distraído com o brinquedo de outra banca, tropeça e deixa a meleca da dúzia de ovos escorrer sobre a rede artesanal do nordestino, estendida sobre o asfalto. Um corre-corre na ponta da rua: um garoto arrasta atrás de si um português que o chama de ladrão: confusão!!! Daquele lado tem uma rodinha comentando que o açougue vendeu carne de cavalo: já fazia tempo que eu desconfiava, fala a mulher, cara de nojo e indignação. O fiscal pede a credencial dum velhinho aposentado que vende apito artesanal, para complementar o orçamento da aposentadoria inglória, cara deslavada do sistema que explora e não dá medalha pelo mérito de anos de produção: dá humilhação!  Balbúrdia de povo no compra e vende, frenético, falas desencontradas em um domingo de feira.

Neri de Paula Carneiro

Mestre em Educação, Filósofo, Teólogo, Historiador

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March 05

Ser Estudante

Ser Estudante

 

Neri de Paula Carneiro - neri.car@hotmail.com

Roteiro para palestra aos estudantes da FAP

Semana Acadêmica 04/03/2008

 

Em clima de começo de ano não é muito estranho que iniciemos uma conversa sobre uma temática recorrente: Trata-se do ser estudante. E, particularmente do estudante universitário. O que vem a ser essa realidade tão falada e nem sempre entendida: o estudante?

Vamos começar fazendo algumas ressalvas ao nosso tema. E começamos nos perguntando: devemos tratar do Ser Acadêmico ou do Ser Estudante?

Nós nos acostumamos a dizer que aquela pessoa que venceu o monstro do vestibular e matriculou-se numa faculdade é acadêmico.

Mas o que é isso que se convencionou como Acadêmico?

Nas suas origens gregas a palavra se vincula a Platão que tinha uma escola denominada “Academia”, por se localizar num jardim dedicado ao herói “Academus”.  Foi uma escola dinâmica tendo formado inúmeros pensadores. Um dos mais conhecidos foi Aristóteles. Na porta da academia de Platão havia uma placa: “Não entre se não for geômetra”. Note que embora fosse uma escola dinâmica, era, também, restritiva: restringia-se aos geômetras.

Se olharmos para o dicionário (o Aurélio, por exemplo), veremos o seguinte: Acadêmico: “Diz-se do artista ou da obra de arte que se conserva presa às regras e ao gosto do academismo, numa concepção estética imobilizada, alheia às novas correntes de expressão”; e mais: “diz-se de manifestação artística ou cultural de um convencionalismo estreito, hostil a qualquer inovação” (Destacando que Academismo é uma ou corrente estética do século XVI que condenava as inovações e preconizava o retorno aos padrões clássicos da Antiguidade. Está, pois, inserida no contexto do Renascimento que, apesar de todas as inovações que produziu, neste caso produziu não um avanço, mas uma postura retroativa).

Atualmente entendemos como acadêmico é aquele que está ou que pertence à academia. E aqui a coisa se complica: entre nós academia não tem uma conotação gostosa, bonita, jovial, inovadora. Não tem aquele som jovem, alegre, descontraído, comprometido, inquieto como quem está na constante busca de algo... ainda meio indefinido... Por isso acadêmico e academia, entre nós tem um ar meio rançoso e elitizado. Lembremo-nos da Academia Brasileira de Letras. Seus membros são até chamados de imortais. Mas nem sempre os melhores escritores são os membros da Academia Brasileira de Letras.

Assim sendo nos parece que ao invés de acadêmico, aquele que se arrisca num curso em uma faculdade poderia ser mais bem descrito como estudante.

Outra vez, precisamos nos socorrer com uma ajuda do “Aurélio”. Aí teremos a afirmação de que estudante é aquele que estuda. E o que é estudar?

A lista do dicionário é enorme. E não é depreciativa: “aplicar a inteligência para aprender”; “dedicar-se à apreciação, análise, ou compreensão”; “freqüentar um curso”... estas acepções estão mais próximas de nós e do que fazemos. Quando somos integrantes disso que chamamos de “curso superior” estamos num ambiente em que um dos principais elementos é a BUSCA. Não é a toa que se fala do tripé da universidade: ensino, pesquisa e extensão. Sendo que a pesquisa é o ponto de origem das informações a serem ensinadas na sala de aula e a extensão um caminho pelo qual as inovações da pesquisa são levadas à população.

Mesmo assim, podemos dizer que popularmente existem duas concepções sobre o ser estudante. Há dois “enfoques”: um meio maledicente que vê o estudante como um ser meio moleirão, matreiro, malandreante. Um ser meio indefinido que está ai só por estar, aparentemente descomprometido com seu curso e com a vida e, pior ainda, descomprometido com as questões sócio-político-econômicas do país, do estado, do município.

A outra forma de visualizar o estudante é associando-o ao movimento estudantil. Ao histórico do movimento estudantil que mexeu com as bases da ditadura militar. Que apontou e que ainda hoje procura alternativas para a melhoria do sistema escolar de nosso país. Nesta visão a idéia que se forma sobre o ser estudante é de alguém que não está por estar, mas está inserido numa sociedade e num grupo que busca “algo a  mais”. Aqui está presente a idéia de desenvolvimento pessoal e coletivo.

Quando nos referimos ao estudante estamos me referindo à segunda concepção que também se aproxima do que está nos dicionários. Estudante, neste ponto de vista, é uma espécie de sinônimo de dinamicidade. É alguém que, contra todas as expectativas, ainda acredita que pode construir um mundo melhor a partir de seu crescimento pessoal.

Vamos então, buscar algumas características do estudante, ou do ser estudante.

E aqui entra mais um elemento. Gostaria de dizer que aquilo que caracteriza o estudante deveria ser aquela atitude de Sócrates: andar pelas ruas e praças em busca dos saberes, aprendendo na gratuidade do puro gosto e sabor do saber.

Alias gostaria que essa fosse uma característica de nós todos: estudantes e professores. Gostaria que a nossa mais marcante e definitiva característica fosse a busca gratuita, dinâmica, constante do saber. Para que dissessem de nós o que se diz terem dito de Pitágoras: O rei Creonte teria perguntado a Pitágoras: “ouvi dizer que andas por aí como que a “Filosofar?” E Pitágoras teria respondido. “Sim, mas eu não sou o ‘sófos’ [sábio]; sou apenas um ‘Filo Sófos’ [amante do saber]”. Nossa postura deveria ser, também, essa de andar filosofando, mas com a consciência de que não somos sábios.

Gostaria que todos nós assumíssemos a postura de Pitágoras: não somos Sábios, mas pessoas que vivem na busca da sabedoria. E com isso todos nós seriamos filósofos: aqueles que vivem, não pelo saber, mas pela busca do saber. Com a consciência de que é saber que move o mundo, pois o saber produz conhecimentos que produzem tudo aquilo de que necessitamos.

Entretanto, dentro de nossa cultura, isso não é possível. Eu não seria honesto nem comigo nem com os estudantes. Nossa sociedade não mais vive pela busca do saber, mas pela vontade de ter; a essência perde espaço para a aparência.

Portanto ao invés de falar daquilo que deveria ser, sobre o ideal, vamos comentar algumas características do real. Querendo, cada vez mais, estarmos preparados para sermos agentes no mundo e não simplesmente recebendo aquilo que o mundo e a sociedade nos impõem. Como estudantes concretos, e não ideais, estamos aqui em nosso processo de busca.

Não nos esqueçamos que estamos inaugurando um novo século. E ele tem exigências que nem sempre estiveram presentes no cotidiano da humanidade. Daí que nos vem a questão: o que é Ser Estudante, nos dias atuais?

Primeiramente não vamos nos prender ao ser como aquela categoria filosófica que remonta a Aristóteles. O que caracteriza o Ser Estudante, aqui para nós, são algumas atitudes que caracterizam o estudante; atitudes que lhe permitem transformar-se, diariamente, em alguém melhor. E para isso uma coisa é indispensável: ou seja, ser estudante. E o que é ser estudante? Ser alguém que estuda.

Muita gente se matricula; freqüenta as aulas; muitos até tiram excelentes notas. Mas não são estudantes. Não são pessoas dispostas e querendo aprender, sempre e cada vez mais! Não estudam... passam pelo curso e recebem um diploma... mas permanecem fechados em seu mundinho: não procuram nem aceitam o novo nem os novos desafios. Não são estudantes, mas acomodados.

Em segundo lugar podemos dizer que não é estudante aquele que vai apenas se fazer presente no ambiente da academia. Estudante se caracteriza pela atitude de quem é inconformado com o que está pronto; inconformado em busca das novidades; inconformado com aquilo que tem cheiro de coisa velha. Estudante quer novidade. E as novidades não nos procuram. Nós é que precisamos procurar por elas; correr atrás delas. Principalmente nos dias de hoje em que as novidades envelhecem muito rapidamente.

Lembremo-nos da música, antiga, mas atual: “Mágoa de boiadeiro”, cantada por Pedro Bento e Zé da Estrada: No lamento do boiadeiro “que perdeu a profissão” há “saudade” e “solidão”. Por não se ter preparado para conviver com o progresso que é sempre portador de novidades, agora é vítima dele: Por tudo isso eu lamento e confesso que a marcha do progresso é a minha grande dor / Cada jamanta que eu vejo carregada transportando uma boiada me aperta o coração

Além disso, o estudante valoriza aquilo que é tradicional. Pode parecer contraditório, mas não é. Tradicionais são aquelas realidades que se firmaram e afirmam, pela qualidade, ao longo dos tempos. É tão bom que não envelhece. Nada melhor, para ilustrar isto do que a música. Basta nos lembrarmos de quantos grupos musicais estouraram; fizeram o maior sucesso. Mas pouco tempo depois ninguém mais se lembra deles. São casos de música descartável com prazo de validade curto. Em contrapartida existem músicas tão boas que fizeram sucesso quando foram lançadas, foram regravadas e relançadas várias vezes: são tradicionais. Outro exemplo: a Bíblia é um escrito de pouco mais de 3 mil anos; os vedas, dos hindus, tem 5 mil anos... não envelhece!

Com isso chegamos a uma quarta característica do estudante: alguém antenado no seu cotidiano e no mundo. Quem não está por dentro do que anda acontecendo, está fora. Não tem espaço no mundo estudantil e nem no mercado de trabalho.

Há poucos dias ouvi de um próspero empresário de nossa região a seguinte afirmação: “nós nos acostumamos a ouvir que os últimos serão os primeiros. Mas não é verdade. No mundo dos negócios, os últimos serão descartados. Só tem espaço para os primeiros, os melhores

Cabe lembrar aquela história que é contada em treinamento empresarial, em que duas pessoas, passeando pela selva se defrontam com um leão faminto. Um dos dois se põe a correr e o outro, calmamente, calça um tênis de corrida. O primeiro argumenta; “você pensa que vai correr mais que o leão, com esse tênis?” E o outro: “Não preciso correr mais que o leão. Só tenho que correr mais que você”. O ambiente da competição é desumano.

Isso nos leva à uma outra característica do estudante e do processo da vida acadêmica: preparação para o mercado de trabalho. Nas primeiras aulas os professores costumam perguntar aos alunos: por que vocês estão estudando? Resposta ensaiada: “para conseguir algo melhor”. Mas isso é pouco. Antes de conseguir “algo melhor” a pessoa tem que ser melhor. Tem que ser mais gente. O mercado de trabalho está repleto de bons profissionais, mas poucos têm a qualidade que mais se procura: gente! Gente que trabalha com o coração. No mercado de trabalho o espaço está aberto para quem tem além de capacidade racional, capacidade emocional. E os estudantes precisam desenvolver isso, também. Embora o ambiente seja tremendamente racional, ao estudante cabe desenvolver suas capacidades emocionais. “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”, dizia a raposa ao Pequeno Príncipe.

Cabe mais uma característica. Estudante é solidário, amigo. Numa sociedade de individualistas e egoístas, tem espaço para quem se preocupa com o outro. É imprescindível se dar o trabalho de conhecer as pessoas, para criar laços. Lembremo-nos das palavras da raposa ao princepezinho: “A gente só conhece bem as coisas que cativou. [...]. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, as pessoas não têm mais amigos; se queres um amigo, cativa-me”.

Vale a pena lembrar a história do ratinho que, desesperado, procurou a galinha, o porco e a vaca para avisar que havia uma ratoeira na sede da fazenda. Não lhe deram ouvidos. Mas ao ser armada a ratoeira prendeu uma cobra venenosa que picou a mulher do fazendeiro. Seu marido matou a galinha pra fazer ensopado para a esposa; como não sarou, matou o porco para alimentar os vizinhos que vinham visitar a enferma que acabou morrendo. Quando morreu, o fazendeiro matou a vaca para alimentar a todos. Só o ratinho permaneceu com vida. Tentou ser amigo, mas não encontro solidariedade.

Além disso, o estudante precisa ter mais uma característica: ser leitor. Leitor atento, dos textos e do mundo. Nos textos buscará as informações que lhe permitirão crescer em sabedoria para ler o mundo. O mundo é um livro que precisa e deve ser decifrado.  A linguagem dos livros precisa ser decifrada pela leitura cotidiana. A linguagem do mundo pode ser entendida pelo silêncio e pela proximidade: quem se faz próximo entende a linguagem do silêncio. Mais uma vez ouçamos as palavras da raposa, ao pequeno Príncipe: “eu te olharei com o canto dos olhos e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal entendidos”. Mas o leitor consegue perceber as nuances de cada situação. Se não perceber é por que ainda não aprendeu a ler.

Isso nos leva a mais uma característica: a persistência e perseverança. Não se chega a lugar algum se não se colocar a caminho. É no caminhar que se superam as dificuldades. E, o que é mais importante. O homem não se faz pela facilidade, mas pelos problemas, pela superação das dificuldades. A humanidade chegou ao ponto em que está, não por que existiram condições favoráveis, mas porque não havia condições.

Para ilustrar isso alguns versos da música “Até o Fim” do Engenheiros do Havaí: “Não vim até aqui /Pra desistir agora! Entendo você / Se você quiser ir embora... / Não vai ser a primeira vez / Nas últimas 24 horas / Mas eu não vim até aqui / Pra desistir agora!... / Minhas raízes estão no ar / Minha casa é qualquer lugar / Se depender de mim / Eu vou até o fim... / Voando sem instrumentos / Ao sabor do vento / Se depender de mim / Eu vou até o fim...”

As características do estudante poderiam ir se sucedendo. Mas com essas podemos nos preparar. Não para a formatura, mas para entrar no mundo do estudo. Um mundo que só tem porta de entrada.

Neri de Paula Carneiro

Filósofo, Teólogo, Historiador

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March 01

A qualidade necessária

A qualidade necessária

 

 

Não podemos permanecer apenas nos reunindo e falando sobre os problemas. É necessário refletirmos sobre a nossa pratica de professores, que alguns chamam de educadores. É preciso analisar o que queremos com o nosso SER PROFESSOR. O que nos leva a ser o que somos? Ou não somos o que dizemos ser?

Primeiramente precisamos nos lembrar que não somos apenas profissionais de educação, mas colaboradores num processo de formação de homens e mulheres. Somos co-responsáveis pelo futuro de jovens que diariamente param à nossa frente para nos ouvir. Mas pecamos contra esse futuro quando queremos que apenas nos ouçam. Como professores, precisamos falar, pois professor é aquele que “pro-fere” (fala diante de). E se supõe que quem se propõe a falar diante de uma classe de alunos tenha algo que professar É inconcebível um professor que não tenha conhecimentos a serem partilhados. Assim sendo, se não tens o que dizer não se faça professor!

Por outro lado, e para podermos direcionar o nosso “professar” precisamos, também, saber ouvir o que dizem os alunos. Não é redundância lembrar que uma das acepções do vocábulo latino, aluno, significa “sem luz” e, portanto, receptivo à luz da fala daquele que se coloca à sua frente, o professor; o aluno é aquele que se coloca na posição de quem aprende. Isso implica dizer, também, que o próprio professor é um aprendiz, ou não é professor!

Daí vem o segundo ponto de reflexões, não menos importante que o primeiro. Como professores não somos senhores absolutos da verdade. Temos muito que ensinar – ou não seriamos professores. Mas com qual metodologia? Precisamos, portanto, rever nossa mentalidade, nossas posturas, para evitarmos o risco de nos considerarmos semi-deuses e subirmos em um pedestal de onde os alunos (os sem luz) virão nos adorar e beber da fonte do nosso saber. Reformular nossa maneira de pensar significa nos fazermos acessíveis aos nossos alunos. Acessíveis não só ao nível da linguagem (falar e explicar de forma clara), mas principalmente como amigos. O processo do ensino aprendizagem não é uma guerra em que vence o que tem maior poder de fogo, mas uma relação de complementaridade em que o professor se complementa no aluno (só é possível falar a alguém quando tem alguém para ouvir!) e o alunos se complementam no saber do professor (só pode ser aprendiz quem não sabe, pois aquele que já sabe já aprendeu!)

E assim chegarmos a um terceiro ponto de reflexão. Algo que é fundamental em nossa ação neste caminho de amizade. Não entramos em uma sala de aula APENAS pelo salário (Exigimos remuneração condigna, mas isso não é tudo!). Da mesma forma que um médico que trabalhasse apenas pelos seus honorários seria um assassino, o professor que assim procedesse seria mercenário. Da mesma forma que é inconcebível a prática de um médico que não queira, urgentemente, a cura de seu paciente, é impensável o professor que não deseje a aprendizagem de seu aluno. E justamente por isso é que precisamos ser exigentes. Exigir que nossos amigos (alunos) saiam da escola sabendo aquilo que ensinamos. Não podemos permitir que nossos alunos tornem-se profissionais medíocres porque fomos relapsos ao ensinar. Temos que ensinar, portanto, com a qualidade de exigir qualidade de aprendizado. Havendo aprendizagem acontece, conseqüentemente, aprovação.

Neste ponto reside a grande questão. Como professores, como amigos e como profissionais que prezamos nossa ação de ensino, não podemos consentir um sistema escolar que privilegia as estatísticas. Temos visto nosso país representando um feio papel diante dos organismos internacionais. A quê se deve isso? Às políticas das estatísticas: inconcebivelmente nós professores cedemos às políticas que desejam altos índices de aprovação, mas não cobram altíssimos índices de aprendizagem. Somos obrigados a ceder às pressões que nos fazem nos finais de bimestres, de semestres, de ano letivo, quando nos cobram índices de aprovação sem nos cobrar aprendizagem! Com aprendizagem há aprovação, mas a política dos índices de aprovação não está preocupada com a aprendizagem.

Prova isso o fato de que tempos atrás a “média” para aprovação era sete. A necessidade de altos índices de aprovação abaixou a média para seis.

Por esse motivo vemos alunos serem aprovados sem conhecimento. Chegam e saem das escolas, analfabetos. Não porque não haja trabalho do professor, mas porque existe um sistema malformado, mal intencionado. Levantem as mãos, os professores, sérios naquilo que fazem, que nunca tenham sido, de alguma forma pressionados para aumentar seu “índice de aprovação”. Qual professor que nunca ouviu, depois de uma reunião de “conselho de classe”, comentários como: “seus alunos estão com nota muito baixa, professor”, ou “mas todos esses não alcançaram a média?”. Evidenciando que existe preocupação em alcançar a média e não com a aprendizagem, pois, repetindo, quem aprende tem nota, até acima da média. Não podemos nos esquecer que a média é medíocre.

Podemos assim voltar à questão: o que queremos com nosso ser professor? Como anda nossa capacidade de ouvir as aspirações de nossos alunos? Estamos buscando novos conhecimentos, mantendo-nos atualizados? Ou nos acomodamos na aprovação mediana exigida pelo sistema que só quer estatísticas? Com que metodologia ensinamos? Para onde estamos conduzindo nossos alunos?

Não nos esqueçamos que a dimensão educativa da ação do professor depende do que se chama ensino-aprendizagem. É por meio dela é que atingiremos a qualidade necessária.

 

Neri de Paula Carneiro

Filósofo, teólogo, historiador

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